quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Lista de Afazeres - Um ser humano prestes a explodir de raiva

Analiso minha lista de afazeres. Ela é longa, densa, repleta de tópicos importantes, que há dias vêm sendo adiados e não podem mais esperar para ser riscados de uma vez por todas do mapa da minha vida. Ela própria já é uma realização.

O caminho até riscar todos os itens da lista é sofrido. A tortura não é o cumprimento dos itens em si. O cumprimento de um compromisso é prazeroso, libertador.
A tortura é o período anterior, antes mesmo da própria listagem dos tópicos, quando ainda estamos procrastinando. Ali dominam a indecisão, a insegurança, a angústia, a preguiça, a baixa auto-estima, o sentimento de incapacidade, o auto-boicote. Todos em festa e quanto mais compromissos se acumulam, maior a festa, e quanto maior a festa, maior a lista.

Olho novamente para a lista. Cada item se divide em sub-itens. Para chegar ao fim de um deles, por exemplo, é preciso dar mais de um telefonema. Viajar a outra cidade. Revolver pilhas de papéis amontoados, cada qual com sua pendência deixada para depois. Comparecer a uma repartição pública. Aí então, é uma sensação prévia de derrota.

No primeiro telefonema, a chamada é desviada para a caixa de mensagens. Após a quarta tentativa, a inevitável desistência e o adiamento da tarefa. A utilidade de um telefone é totalmente aniquilada quando a ligação nunca é atendida.

Viajar a outra cidade para buscar uma única folha de papel libertadora requer toda uma preparação. Primeiro com o veículo: deve-se verificar combustível, água, óleo. Calibrar pneus. Se precisar passar por um pedágio, é preciso ter dinheiro vivo em mãos. Se não tiver, tem-se que ir antes ao banco fazer o saque. Pegar a fila do banco. Não esquecer de levar o cartão. O repertório musical também deve ser checado e garantido. Deve ser aquele em que as letras já foram todas decoradas. Isso faz toda a diferença para o êxito da missão.

Depois de tudo isto definido, o momento mais difícil: sair de casa. Não se pode pensar muito, deve-se ligar o cérebro no botão automático e seguir firme até o guarda-roupa. A escolha do figurino pode ser um passo mais que estressante. Especialmente se o que se tem que vestir não é exatamente uma projeção do seu verdadeiro eu. Roupa formal. Sapatos altos. Bolsa estruturada. Maquiagem. O sorriso social. Monta-se toda uma personagem.

Quanto à pilha de papéis, este é, sem dúvida, o obstáculo mais demorado. Cada inocente folha demonstra uma outra providência a ser cumprida. Passar os olhos por elas significa relembrar e armazenar, nos milésimos de segundos de que o pensamento é capaz, mais e mais obrigações, o que, certas vezes, é capaz de causar tamanha confusão mental geradora do grande "branco" que é o travamento da mente que a torna incapaz de realizar qualquer atividade útil a não ser aquelas de satisfação imediata, como comer um doce, ou abrir pontas duplas dos cabelos.

É preciso uma dose grande de concentração, se não um choque de realidade, para sair dessa situação paralisante e retomar as rédeas da vida, porque, nesse momento, tudo pára.
Enquanto aquela grande rocha não é afastada do caminho, nenhum outro movimento é possível.

A detonação dessa rocha só pode ser feita com o uso de muita dinamite. Uma grande explosão. Uma explosão de raiva que se sucede ao grito de liberdade. A batalha se inicia. É uma corrida bélica rumo à libertação de um ser vivo.

Nada, nem ninguém pode interromper esse processo sem volta, sob pena de uma catástrofe ainda maior. E que ninguém profira a palavra "mãe" perto desse ser em transformação. Ou lágrimas irão rolar.

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