Da
vidraça da cafeteria eu vejo um pedaço de rua. Uma rua antiga, com calçamento
de pedras arredondadas. Chove uma chuva média e constante. Quem passa por ali, segue
molhado, de cabeça baixa, ainda que com guarda-chuva.
Um
guarda-chuva emperrado, pontudo, é carregado por um homem de chinelos e cara de
poucos amigos. Ele veste uma roupa surrada, a calça mal dobrada nos tornezelos,
de estampa listrada e casaco marrom. Parece um doente de uma vida inteira.
Sobrevivendo aos minutos do dia e da noite.
Um
guarda-chuva xadrez é levado por um marido. Ele veste calça jeans e camisa de listras
finas. Sapatos e cinto de couro marrom, combinando. Óculos de grau e cabelo
penteado. Pela aparência asseada e lentidão calculada, na certa é um marido
levando fraldas pra casa.
Do
prédio em frente sai um casal que parece emergido da Idade das Pedras: estatura
baixa e tronco corpulento, em formato de triângulo invertido. Cabelos grossos,
emaranhados e pretos. Peles enrugadas e queimadas de sol. Movimentam-se em
ritmo lento e simultâneo. Não trocam palavras porque não precisam, se entendem
no olhar.
Respiro
fundo e lembro que tenho que seguir meu caminho. O movimento dos passantes não
pára. A chuva não pára. O tempo não pára. A vida continua.
