quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Da vidraça eu vejo

Da vidraça da cafeteria eu vejo um pedaço de rua. Uma rua antiga, com calçamento de pedras arredondadas. Chove uma chuva média e constante. Quem passa por ali, segue molhado, de cabeça baixa, ainda que com guarda-chuva.
Um guarda-chuva emperrado, pontudo, é carregado por um homem de chinelos e cara de poucos amigos. Ele veste uma roupa surrada, a calça mal dobrada nos tornezelos, de estampa listrada e casaco marrom. Parece um doente de uma vida inteira. Sobrevivendo aos minutos do dia e da noite.
Um guarda-chuva xadrez é levado por um marido. Ele veste calça jeans e camisa de listras finas. Sapatos e cinto de couro marrom, combinando. Óculos de grau e cabelo penteado. Pela aparência asseada e lentidão calculada, na certa é um marido levando fraldas pra casa.
Do prédio em frente sai um casal que parece emergido da Idade das Pedras: estatura baixa e tronco corpulento, em formato de triângulo invertido. Cabelos grossos, emaranhados e pretos. Peles enrugadas e queimadas de sol. Movimentam-se em ritmo lento e simultâneo. Não trocam palavras porque não precisam, se entendem no olhar.

Respiro fundo e lembro que tenho que seguir meu caminho. O movimento dos passantes não pára. A chuva não pára. O tempo não pára. A vida continua.

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